Telemedicina no Contexto do Sistema de Saúde Português
Breve introdução ao sistema de saúde português
O serviço nacional de saúde (SNS) divide o território continental português em 5 regiões de saúde. São elas:
- - Região de saúde do Norte, com sede no Porto (inclui distritos do Porto, Viana do Castelo, Vila Real, Braga e Bragança)
- - Região de saúde do Centro, com sede em Coimbra (inclui distritos de Coimbra, Aveiro, Castelo Branco, Guarda, Leiria e Viseu)
- - Região de saúde de Lisboa e Vale do Tejo, com sede em Lisboa (inclui distritos de Lisboa, Santarém e Setúbal)
- - Região de saúde do Alentejo, com sede em Évora (inclui distritos de Évora, Portalegre e Beja)
- - Região de saúde do Algarve, com sede em Faro compreendendo o distrito do Algarve.
Há ainda a considerar as regiões de saúde autónomas dos Açores e da Madeira.
Cada uma destas regiões possui hospitais distritais que servem em “1ª instância” as populações de cada região. Há, no entanto, limitações neste tipo de hospitais (em termos de um número excessivo de utentes que o frequentam ou na ausência de uma determinada especialidade médica, entre outras), limitações essas que normalmente são colmatadas pelos hospitais centrais gerais. No entanto, nem sempre estes hospitais centrais são geograficamente acessíveis ás populações de um dado distrito. Por esse e outros motivos, torna-se imperativo encurtar distâncias e estabelecer uma ponte que ligará os hospitais centrais gerais aos hospitais e centros de saúde periféricos.
Com este fim, têm sido conduzidas em Portugal, diversas experiências (algumas das quais já não podem ser chamadas de experiências mas sim certezas) em diferentes especialidades. De seguida serão apresentados 3 exemplos de telemedicina.

- Projecto PT-Inovação / Hospital Pediátrico de Coimbra
A 14 de Outubro de 1998 nasce o projecto de Telecardiologia pediátrica, fruto da parceria PT-Inovação/ Hospital pediátrico de Coimbra (HPC). O objectivo desta parceria era o de possibilitar a outros hospitais do país, o contacto directo com especialistas na área da cardiologia pediátrica. Para esse efeito, foi estabelecido no HPC o orgão de teleconsulta central, o qual teria ligação com outras instituições de saúde como a Maternidade Júlio Dinis (zona Norte do SNS), o Hospital de Crianças Maria Pia (zona norte do SNS), o Hospital de Santo André em Leiria (zona Centro), e o Hospital Distrital de Aveiro (zona centro do SNS).
Neste projecto foram testadas as soluções de tele-diagnóstico em tempo real (síncronamente) e em deferido (assíncronamente). Os especialistas da saúde tiveram a possibilidade de estudar ecografias e ecocardiogramas, entre outros exames de diagnóstico, provenientes dos diversos hospitais periféricos, através da Rede Digital com Integração de Serviços (RDIS). Segundo a opinião do Dr. Eduardo Castela, um dos dinamizadores da telemedicina aplicada à Cardiologia Fetal (Pré-Natal) e Pediátrica, o projecto tem sido um sucesso, já que “várias crianças já foram operadas com base em exames efectuados por teleconsulta”.

Fig. 1 - Rede médica
Pode ver-se na figura 1 o funcionamento da rede médica.
As unidades de memória incluidas são usadas apenas no caso de as comunicações entre instituições não serem feitas sincronamente (entenda-se em tempo real). Dessa forma os dados são armazenados para posterior envio.
Projecto PT-Prime / Maternidade Alfredo da Costa
O sistema BabyCare foi criado a 3 de Abril de 2000, tendo como fundadores a empresa do ramo da Portugal Telecom, a PT-Prime e a Maternidade Alfredo da Costa (MAC), a maior maternidade do país.
A ideia partiu da MAC, na sequência de alguns pedidos e sugestões de pais de crianças prematuras; teve por objectivo permitir o acompanhamento a 24horas/dia de crianças que se encontrassem internadas tanto nos cuidados intensivos como na secção de bebés prematuros.
O funcionamento do sistema BabyCare é representado na figura 2.
II Caso prático de telemedicina em Portugal

Fig 2 - Sistema Babycare
Junto a cada incubadora é instalada uma minicâmara de vídeo a cores. Associado a cada incubadora, existe um equipamento que codifica as imagens do bebé, de forma a poderem ser transmitidas pela linha. Este codificador tem ainda outra função, está configurado em auto-atendimento e ligado a uma linha RDIS. Do outro lado da linha, na casa dos pais (utilizador), existe um equipamento compatível ligado a uma televisão a cores comum. Sempre que o utilizador marca no equipamento o número de telefone associado à incubadora do seu bebé, pode vê-lo, em tempo real. As imagens do bebé podem também ser gravadas em VHS. As imagens das crianças são igualmente visualizáveis na sala da enfermeira-chefe ou de outro responsável médico, complementando a vigilância local dos prematuros. Existe ainda outra funcionalidade que o sistema permite dispor, instalar sistemas em casa do director de serviço ou do médico responsável, que, em caso urgente, darão indicações clínicas ao pessoal de serviço na unidade hospitalar.
Segundo o Dr. Marques Valido, um dos coordenadores do projecto Babycare, a “aceitação que tem tido e pelo prestígio que é para a MAC, não vamos deixar cair o projecto – antes pelo contrário, vamos desenvolvê-lo». Existem planos para aumentar o número de câmaras na unidade de cuidados intensivos e montar algumas também nos cuidados intermédios.
Projecto de Tele-neuro-radiologia
A solução Público-Privado
Tendo em linha de conta as dificuldades económicas que Portugal tem vindo a atravessar nas últimas décadas, com especial impacto no sector saúde, é cada vez mais aceitável que o estado, com o intuito de melhorar a sua “função social”, procure parcerias com o sector privado, sector este que em matéria de tecnologia, está por vezes mais avançado que aquele. Assim é apresentado um caso de parceria entre o Hospital Distrital de Aveiro (HDA) e uma empresa de radiologia.
O objectivo desta parceria é muito claro. Todos os anos o Hospital distrital de Aveiro envia cerca de 3000 doentes para os Hospitais de Coimbra, para a análise e ou realização de exames de TAC (Tomografia Axial Computadorizada); esta situação deve-se ao facto de o Hospital de Aveiro não possuir profissionais de saúde na área da neuro-radiologia. Assim, e tal como é apresentado na figura seguinte, os utentes do serviço de neuro-radiologia, realizam a Tac nos serviços do mesmo nome no HDA, Tac essa que é transferida para a empresa privada onde existe um tele-neuro-radiologista que a analisa, realiza o relatório e o envia de novo para o Hospital, usando sempre uma ligação RDIS.

Fig. 3 - Serviço de neuro-radiologia
Desta forma todos saem benifíciados, o HDA pois evita a contratação de profissionais nesta área, opção que seria dispendiosa (“Seria necessário ter vários médicos para assegurar um serviço diário, não esquecendo que existem poucos no mercado", explica o Dr. Pedro Afonso), os utentes que assim evitam a deslocação aos Hospitais de Coimbra, e como é claro a própria empresa privada. De referir ainda que o uso da Teleneuro-radiologia, segundo o Dr. Pedro Afonso, provoca uma poupança de 20% relativamente ao que o HDA gastaria se não possuísse esta solução.
Os casos que são apresentados neste texto destinam-se a dar uma perspectiva do panorama nacional em termos de aplicações práticas de telemedicina. De referir que actualmente praticamente todos os hospitais gerais, distritais, centros de saúde e outros, já possuem serviços de telemedicina, que abrangem praticamente todas as especialidades médicas